Psicologia

 

BIRRA INFANTIL: O QUE FAZER?

Uma cena costumeiramente costuma aterrorizar o imaginário dos pais. Trata-se de nossos pequenos gritando e se debatendo em um espaço de grande circulação como um shopping ou um supermercado. E quando pensamos nisto, antes de sermos pais temos a receita na ponta da língua, mas quando nosso filho é real e produz tal espetáculo somos surpreendidos por uma desorientação quase visceral.
O pior de todo este show produzido e estrelado por nossos filhos é que geralmente não saímos dos bastidores para a cadeira do diretor e também esquecemos o momento de declarar firmemente: “corta.” É importante que tenhamos o controle da circunstância por maior que seja o publico e por mais constrangedora que seja a situação.
Então vocês podem estar se perguntando: como fazer isto? Como deve reagir diante de tal comportamento do meu filho? Neste momento vos convido a iniciarmos uma pequena reflexão a este respeito.
Ao longo do desenvolvimento infantil a criança atravessa variadas etapas, todas com características muito próprias. Freud descreve o desenvolvimento sustentado em cinco fases distintas, sendo estas fases as seguintes:
Observando esta divisão por faixas etárias, podemos compreender que por volta dos dois anos, quando a criança começa a ter as vivências mais significativas da fase anal coincide com o período em que nossos filhos refinam-se nas birras e no comportamento oposicionista.
Isto porque nesta fase a criança experimenta em seu próprio corpo a possibilidade de controle. Isto é, neste momento é a criança quem decide a hora de evacuar ou reter o xixi e o côcô. Com a capacidade de controlar os esfíncteres surge uma tentativa de dominar o mundo externo (abrangendo também as pessoas). Assim a maioria das crianças, por mais boazinhas que sejam, tendem a se rebelar nesta fase e passam a testar todos os limites.
Aqui abro um parêntese muito importante. Por mais difícil que seja nos depararmos com as birras e o negativismo constante das crianças é importante lembrarmos que elas estão em uma fase muito singular de suas vidas que é o momento de construção de sua personalidade. Então nossa função como pais e educadores é ajudar aos meninos e meninas a construírem da forma mais saudável possível a sua identidade.
A esta altura vocês podem estar se perguntando: como é que eu vou enfrentar as birras do meu filho e ainda ajudá-lo na construção de sua personalidade? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Quem respondeu a palavra LIMITE acertou em cheio.
Pode até parecer estranho, mas é assim mesmo. Como eu não canso de dizer o limite aliado ao carinho são a equação equilibrada para uma personalidade saudável. O carinho superprotetor deixa a criança indefesa e insegura e o limite sem afeto é humilhante.
O limite deve nascer dentro de uma relação equivalente entre amor e regras. Sem esquecer que limite não é o não pelo não, mas uma forma de apresentamos aos nossos filhos o que é certo e o que é errado. Estas regras serão extremamente importantes para a conduta social dos nossos filhos, pois como sabemos a vida não é tão generosa quanto nós.
Se não adaptarmos nossas crianças a ouvirem NÃO e a perderem, como poderemos esperar que elas se reorganizem frente às negativas que a vida lhes dará? O NÃO é estruturante e constituinte do humano. É a possibilidade de ressignificar aquela perda e aquela frustração que nos prepara para a vida em sociedade.
Quando somos pequenos e queremos um carrinho novo ou uma boneca nova que está exposta na vitrine e não os recebemos temos que continuar vivendo. O que nos resta depois deste NÃO, desta frustração? Depois de vivenciarmos sentimentos inerentes a todos os seres humanos como a raiva e a tristeza; podemos voltar para casa e brincarmos com um dos quase vinte carrinhos que temos ou uma boneca que gostamos muito.
Assim aprendemos que é necessário substituir aquele símbolo (boneca ou carrinho novo) que despertou o nosso desejo por outro equivalente e mais acessível (os brinquedos que temos em casa). Esse processo é tão importante que é ele que vai me fazer não roubar um banco quando for adulto para comprar a ferrari dos meus sonhos. Eu até vou sonhar dirigindo aquela máquina pelas ruas da cidade, mas vou ter que acordar e me contentar com o carro popular que tenho na minha garagem.
Não precisamos ir muito longe esta capacidade de ressignificar uma perda e lhe dar com a frustração é tão importante que nossos filhos não atiraram em ninguém na rua para apropriar-se do tênis que não posso comprar. Exagero? Não o limite como já disse anteriormente nos prepara para a vida.
Entretanto, voltemos a questão do espetáculo da birra. Já vimos que todas as crianças testarão os limites. Vimos também que é importante que ela seja frustrada quando necessário.
A birra é sempre a expressão de um descontentamento ou a reinvidicação de um desejo. O que tem que ser combatido é a forma errônea que a criança está utilizando para se expressar e não promover um bloqueio em sua expressão. Devemos mostrar aos nossos filhos que ele pode utilizar formas de expressar-se mais aceitáveis e que comunicam muito mais eficazmente suas necessidades e desejos que não seja através da birra.
Quanto as nossas atitudes frente as birras, lançarei mão de um artigo da revista crescer intitulado: “10 passos para lidar com a birra da criança . E não perder a classe.” As minhas considerações colocarei em letras azuis.
1. Por pior que seja o “espetáculo”, NUNCA, JAMAIS, em tempo algum  bata no seu filho.
Quando batemos ensinamos aos nossos filhos que a melhor forma de resolver um conflito é batendo no outro.

2. Antes de sair, previna-se de possíveis contratempos. Se vai ao supermercado, fale que a criança tem direito a escolher dois doces, por exemplo.
As regras e combinados precisam estar claras para todos, pois caso a criança não as cumpra você pode retirar-lhe um direito.

3. Não ceda às manipulações. Mostrar que birras não dão resultado é um jeito de desestimulá-la a repetir a cena.
Não podemos ceder nunca para coisas improváveis a fim de que a criança não ache brechas nas regras. Se ela não pode pular na cama hoje, também não poderá amanhã.

4. Avise seu filho que só conversará com ele depois que ele se acalmar (e você também...).
Use expressões como: “colocar o coração para descansar e a cabeça para pensar”, assim você consegue chegar ao 100 da contagem (temos que contar até 1000 se necessário) e ambos conversarão com os ânimos mais tranqüilos.

5. Se precisar dar uma bronca na criança, espere ela terminar de espernear e explique por que está sendo punida. É importante que ela entenda o que fez de errado e, para isso, precisa estar tranqüila para conseguir ouvir o que você tem a dizer.
É a perda de direitos que trabalhamos na nossa escola. É importante que a família tente trabalhar de forma semelhante para não criar contradições na cabeçinha das nossas crianças.

6. Não brigue com seu filho na frente de todo mundo; isso o fará se sentir humilhado.
De cabeça quente também pode-se dizer coisas que não queríamos e as palavras depois que saem da nossa boca não voltam mais.

7. Desvie o foco da criança. Mostre um objeto diferente, o cachorrinho passando na rua, o avião lá no céu... Use a criatividade!

8. Algumas vezes, por trás da birra existe uma criança com fome, sono ou carente. Se for esse o caso, responda pacientemente e faça um carinho. Às vezes, é só disso que ela precisa.

9. Simplesmente ignorar a birra também pode dar bons resultados. Respire fundo.
E conte até 1000 se necessário.

10. Se não tiver como conter o show no meio da loja, simplesmente pegue seu filho no colo e vá embora. Sem escândalos. Ele vai perceber que não adiantou nada e você evita o constrangimento.

Se a família tiver ido passear num shopping, por exemplo, somente a criança deverá ser penalizada. Se houver a possibilidade de que ela seja deixada em casa com uma babá ou avó, então proceda assim: retire a criança do lugar da birra leve-a para o carro e explique que ela perdeu o direito de passear e por isto irá para casa. Advirta que os demais membros da família permanecerão passeando, pois ninguém descumpriu as regras ou combinados além dela.
Ter que observar todas estas sugestões e tentar adaptá-las a nossa realidade é complicado, entretanto é um investimento emocional que a longo prazo assegurará a formação de adultos saudáveis, seguros, amadurecidos e equilibrados.Educar dá trabalho e nosso filho não vem com manual de instruções, portanto “perder” tempo hoje é a garantia de um sono tranquilo amanhã.

“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele”.
Provérbios 22:6

Fernanda Costa
Psicóloga